À medida que a crise climática se aprofunda, influenciada por infraestruturas extrativistas das Big Tech, coletivos do Mundo Majoritário impactados por essas tecnologias estão desenvolvendo soluções climáticas de pequena escala, eficientes em recursos e centradas na comunidade para enfrentar desafios ambientais urgentes. Ao longo do próximo ano, colocaremos esses coletivos como eixo de uma iniciativa de ciclo completo que explora como tecnologias de IA resilientes ao clima, impulsionadas localmente, são concebidas e desenvolvidas, e como podem ser adotadas de forma responsável e baseada no cuidado.
Reimaginando e redirecionando as tecnologias de IA
As narrativas dominantes sobre a IA e mudança climática continuam sendo impulsionadas por um conjunto restrito de atores, principalmente grandes empresas de tecnologia e instituições do Mundo Minoritário, cujas prioridades, recursos e visões de mundo frequentemente estão distantes das comunidades que enfrentam o maior peso da crise climática. Essas abordagens tendem a privilegiar sistemas de grande escala e intensivos em recursos, que dependem de práticas extrativistas, alto consumo de energia e água, ou de conjuntos de dados e modelos que não refletem os contextos locais onde são aplicados. Além de reforçar as desigualdades existentes na forma como a tecnologia é desenvolvida e utilizada, a ênfase nessas abordagens também limita nossa capacidade de imaginar formas alternativas de nos relacionarmos com a IA, obscurecendo o papel das comunidades na linha de frente em desafiar e redirecionar como essas tecnologias podem promover justiça.
Para apoiar a reimaginação e o redirecionamento das tecnologias de IA, lançamos hoje nossa iniciativa de IA para a Ação Climática. Ao longo deste esforço de um ano, colocaremos no centro a liderança do Mundo Majoritário por meio do mapeamento de suas histórias e da construção coletiva de uma estrutura ascendente para avaliar a adoção da IA. Também apoiaremos grupos que tenham curiosidade sobre esses modelos, por meio de aprendizagem entre pares e experimentação em um ambiente digital seguro para explorar ferramentas.
Ao evidenciar uma multiplicidade (ou um pluriverso) de alternativas, mostraremos que existem diversas formas de desenvolver tecnologias de IA, propondo uma abordagem não binária sobre como os modelos podem ser imaginados e desenvolvidos: nem um entusiasmo acrítico nem uma recusa total ao seu design ou uso, mas uma abordagem situada que parte dos contextos das comunidades afetadas, por meio de abordagens tecnológicas concebidas ou adaptadas por elas, em toda a sua diversidade.
Nossa iniciativa busca contribuir para sociedades mais equitativas e sustentáveis, ao colocar no centro a imaginação de coletivos que exercem sua agência e desenvolvem respostas enraizadas localmente. Colocaremos no centro suas re-imaginações e redirecionamentos para expandir as nossas e as de todo o ecossistema de direitos digitais.
Pesquisando IA centrada nas comunidades
Com a justiça climática como abordagem orientadora, daremos início a esta iniciativa conduzindo pesquisas sobre a IA centrada nas comunidades e mapeando soluções de IA relacionadas ao clima em contextos da Maioria Global que colocam no centro as experiências e a liderança de coletivos mais impactados pela crise climática. Observaremos tecnologias concebidas ou adaptadas para enfrentar desafios climáticos por organizações sem fins lucrativos, coletivos comunitários e organizações acadêmicas, com ênfase especial em modelos “perimetrais”, “frugais” ou “pequenos”, como sistemas de IA compactos para monitoramento ambiental, previsão agrícola e gestão de recursos, bem como modelos de linguagem pequenos, projetados para operar de forma eficiente com menor consumo de recursos.
Buscaremos compreender como as comunidades são colocadas no centro ao longo de todo o ciclo de vida da IA em cada uma dessas iniciativas, desde o design e o treinamento de modelos até a implementação e eventual desativação, identificando quais condições têm possibilitado que organizações comunitárias desenvolvam e sustentem ferramentas de IA para a ação climática em diferentes contextos. Também procuraremos entender como os coletivos imaginam o futuro de suas ferramentas e quais modelos de crescimento se alinham com sua visão de justiça: pretendem permanecer pequenos e enraizados em seus contextos locais? Ou talvez escalar por meio de replicação, adaptação ou conexão com movimentos mais amplos?
Após a identificação das iniciativas, lideranças comunitárias serão convidadas a participar de uma comunidade de prática, um espaço para troca de conhecimentos e compartilhamento de boas práticas em torno da adoção e adaptação da IA em diversos contextos locais.
Comunidades de prática para multiplicar conhecimento
Organizações e pessoas profissionais que atuam nas interseções entre IA, monitoramento ambiental e justiça social em contextos da Maioria Global, incluindo integrantes de nossa recém-formada comunidade de prática, serão convidadas a participar de uma coorte de aprendizagem mútua que funcionará como uma plataforma colaborativa para compartilhar experiências, desafios e conquistas relacionadas a práticas responsáveis de dados no desenvolvimento de IA.
O foco da coorte será compreender coletivamente como as organizações estão atualmente aplicando abordagens orientadas por dados em suas iniciativas de IA, bem como explorar considerações-chave para a gestão responsável de dados, a fim de apoiar a implementação ética de tecnologias e prevenir problemas como uso indevido de dados, violações de privacidade e a exclusão das comunidades do controle sobre seus próprios dados.
Durante o programa de aprendizagem entre pares, também estabeleceremos as bases para a cocriação de um Marco de IA Responsável para a Ação Climática, construído de baixo para cima, que oriente a implementação sustentável, ética e que preserve a privacidade de modelos de IA voltados ao clima, apoiando organizações a avaliar, adotar, contestar ou recusar tecnologias de IA. Nos basearemos em uma prova de conceito desenvolvido por The Engine Room e em nossos marcos de Dados Responsáveis para garantir que as organizações possam exercer controle sobre os dados que informam, alimentam e são gerados por aplicações de IA.
Um espaço de experimentação como ponto de encontro para quem está começando na IA
Em The Engine Room, buscamos tornar a tecnologia acessível por meio do brincar, da criatividade e da experimentação. Com essa abordagem no centro, desenvolveremos uma plataforma digital, o Espaço de experimentação de usos da IA para a Ação Climatica , que contará com histórias interativas destacando desafios reais de parceires locais que lideram ações climáticas, demonstrando o impacto de ferramentas baseadas em IA na abordagem de questões ambientais. Essas histórias apresentarão casos de uso, incluindo um espaço interativo de ferramentas para a exploração por parte das pessoas usuárias, juntamente com orientações sobre práticas responsáveis e éticas de gestão de dados. Também funcionará como um recurso de fortalecimento de capacidades, oferecendo orientações e oportunidades para a exploração prática de ferramentas de IA por meio do desenvolvimento de ambientes interativos para experimentação.
A plataforma será um espaço para compartilhar conhecimento e construir comunidade, conectando organizações interessadas em soluções de IA para o clima. Será hospedada em nosso futuro Hub Comunitário, criando oportunidades de articulação, incentivando a colaboração entre pessoas com experiência em IA e quem está começando, e oferecendo um ambiente acessível para que pessoas não técnicas possam explorar aplicações de IA para o meio ambiente.
O Espaço de experimentação de usos da IA, juntamente com as iniciativas de aprendizagem que o acompanharão, apoiará a adaptação de soluções de IA existentes para atender às necessidades específicas de ativistas da justiça climática do Mundo Majoritário, além de contribuir para o desenvolvimento de uma nova geração de organizações comunitárias capacitadas, com foco em justiça social e formadas em tecnologias de IA sustentáveis.
Se você tem curiosidade sobre nossa iniciativa e deseja contribuir ou articular esforços, sinta-se à vontade para entrar em contato com paola[at]theengineroom.org.

