Resumo do evento: Usando IA de forma segura: Estratégias Práticas para OSCs e Organizações Sem Fins Lucrativos a partir de uma Perspectiva da Maioria Global

Patricia Musomba
Nathaly Espitia

Por meio do nosso trabalho de apoio em The Engine Room, temos recebido um número crescente de perguntas das comunidades e organizações parceiras sobre IA, incluindo seus riscos, oportunidades e como utilizá-la de forma responsável. Como parte do nosso apoio contínuo às organizações da sociedade civil que utilizam a Ferramenta de Avaliação de Segurança Cibernética (CAT), organizamos uma chamada comunitária para explorar abordagens práticas e políticas sobre segurança em IA a partir das perspectivas da Maioria Global.

Para essa conversa contamos com a participação de três palestrantes convidados:

Os palestrantes refletiram primeiramente sobre como a IA está sendo utilizada na América Latina e na África, para logo entrarem nas conversas práticas sobre segurança, privacidade, governança, justiça linguística e alternativas de código aberto.

IA de idiomas e abordagens centradas na comunidade em África

A Masakhane African Languages Hub tem como objetivo construir ferramentas que apoiem 1 bilhão de africanos através de 50 idiomas africanos amplamente falados. Chenai, diretora da organização, destacou que existe muito talento e entusiasmo em torno da IA em todo o continente africano, mas o acesso a financiamento e recursos continua desigual. Muitas ferramentas digitais falham em reconhecer sotaques, tons e idiomas africanos porque os desenvolvedores projetam sistemas principalmente com base em línguas coloniais, como inglês, francês e português. Chenai também enfatizou a importância de abordagens participativas: as comunidades devem ajudar a criar e avaliar conjuntos de dados, em vez de terem seus dados extraídos por meio de práticas de raspagem em larga escala. Governos, pesquisadores e comunidades — e não apenas empresas privadas — devem moldar sistemas de IA escaláveis e relevantes localmente.

IA, segurança e defensores dos direitos humanos na América Latina

Lupa e Ashi, nossos dois convidados da América Latina, refletiram sobre os impactos ambientais e sociais da IA e destacaram a importância de considerar esses fatores antes de adotar novas ferramentas. Uma tendência observada por eles na região é a de que defensores dos direitos humanos tendem a abordar a IA com cautela, em vez de correr para adotá-la. Embora muitas pessoas tenham curiosidade sobre IA, existe uma pressão para utilizá-las, especialmente em contextos com restrições de tempo e recursos.

Agentes maliciosos estão usando IA de forma crescente para fortalecer campanhas de phishing e outras formas de assédio digital direcionadas a ativistas e comunidades marginalizadas. A partir de uma perspectiva feminista e focada na autonomia, os palestrantes enfatizaram a importância de escolher intencionalmente como usamos ferramentas de IA, em vez de permitir que elas nos moldem. Eles incentivaram a apropriação das ferramentas para obter maior autonomia, entendendo por que você está utilizando uma ferramenta específica, para qual finalidade e como ela entregará o resultado desejado.

Dicas de segurança e recomendações

Nossos palestrantes compartilharam um conjunto de dicas práticas e realistas para interagir com IA de formas que priorizem segurança, autonomia e contexto. Essas dicas podem te orientar na navegação por ambientes digitais cada vez mais complexos.

Proteja dados sensíveis

  • Pratique a minimização de dados antes de compartilhar informações com ferramentas de IA. Compartilhe apenas o estritamente necessário para cumprir a tarefa específica.
  • Evite enviar dados confidenciais da organização ou da comunidade para ferramentas de IA.
  • Revise e ajuste as configurações de privacidade e segurança das ferramentas de IA, incluindo desativar o treinamento com dados sempre que possível.
  • Verifique as políticas de retenção de dados para entender por quanto tempo as ferramentas armazenam seus dados.
  • Considere usar ferramentas populares sem criar contas, para reduzir a exposição de dados.

Verifique ferramentas e resultados

  • Verifique informações geradas por IA antes de confiar nelas. A IA pode “alucinar” ou disseminar desinformação.
  • Avalie se as ferramentas realmente atendem às suas necessidades ou apenas coletam dados.
  • Considere se a IA é realmente necessária para a tarefa.

Priorize privacidade e autonomia

  • Utilize ferramentas focadas em privacidade, como Duck.ai ou Lumo, sempre que possível.
  • Esteja atento ao rastreamento por cookies e dados de localização. Use ferramentas como VPNs e Tor para minimizar o rastreamento. Você também pode limpar cookies regularmente para manter a privacidade.
  • Explore alternativas de código aberto ou auto-hospedadas para ter maior controle.
  • Tenha consciência da dependência de infraestrutura controlada por grandes empresas de tecnologia.

Use ferramentas de IA estrategicamente

  • A IA deve apoiar o trabalho humano, não substituí-lo.
  • Defina um objetivo de uso claro e significativo antes de adotar qualquer ferramenta.
  • Evite a dependência excessiva. Muitos problemas ainda podem ser resolvidos de forma eficaz sem IA.
  • Equilibre automação com julgamento humano e experiência.
  • Avalie regularmente se uma ferramenta é realmente útil ou apenas adiciona complexidade.

Construa práticas de IA centradas na comunidade

  • Inclua feedback da comunidade, recomendações, autonomia e consentimento no design e avaliação de conjuntos de dados de IA.
  • Considere a inclusão de todas pessoas, pensando em deficiências, gênero, idioma e idade.
  • Enfrente práticas extrativistas de dados e desigualdades trabalhistas no desenvolvimento de IA.

Localize e contextualize sistemas de IA

  • Utilize métricas e métodos de avaliação localmente relevantes. Muitos sistemas de IA são construídos com pressupostos do Norte Global, que podem não funcionar adequadamente em outros contextos.
  • Desenvolva conjuntos de dados e modelos que reflitam idiomas e realidades locais.
  • Questione se os sistemas existentes são apropriados para o seu contexto.

Perguntas a se fazer antes de adotar uma ferramenta de IA

  • A ferramenta está alinhada aos seus valores e contexto político?
  • Qual é a reputação da ferramenta? E quais parcerias ou acordos foram assinados pela empresa responsável recentemente?
  • Houve mudanças recentes nas políticas internas da empresa?
  • Onde estão localizados os servidores?
  • A ferramenta é baseada em modelos de linguagem pequenos ou grandes?
  • A IA é realmente necessária para este caso ou isso pode ser feito com outro tipo de ferramenta, quando não simplesmente conversando com outras pessoas?
  • A ferramenta é transparente quanto ao uso de dados e privacidade? Por quanto tempo ela armazena e retém nossos dados?
  • A ferramenta utiliza infraestrutura das Big Techs?

Ferramentas locais e de código aberto recomendadas durante a chamada

Recursos adicionais compartilhados pelos palestrantes, participantes e membros da equipe TER

Estamos ansiosos para continuar essas conversas em futuras chamadas comunitárias e espaços de aprendizado compartilhado, ao lado de profissionais de segurança digital e organizações que buscam apoio. Se você perdeu a chamada e gostaria de continuar a conversa, entre em contato com nossa equipe de suporte pelo e-mail cybercat@theengineroom.org


Você também pode agendar um CATio, um espaço dedicado ao apoio de organizações em risco ao redor do mundo com a Ferramenta de Avaliação de Segurança Cibernética (CAT).

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